O Beijo

O aluno entra sala adentro a correr, entusiasmado, e contrastando com o ritmo calmo do mestre. Imperturbável, este vira-se e encara o rapaz com um olhar inquisitivo.
– Tenho uma namorada! – exclamou ele.
– Ah! – disse o mestre, levantando o sobrolho.
– Beijámo-nos!
– Aaaahhh!
E o mestre virou-lhe as costas novamente.
– E porque me vens contar isso? – perguntou, enquanto cuidava das suas orquídeas – Por acaso não gostaste?
– Claro que gostei! Mas estive a pensar.
O mestre sorriu em silêncio e deixou o rapaz continuar.
– Tenho aprendido sobre energia consigo… e o beijo deixou-me quase fora de controlo.
– Huuummm.
– Como é que é um beijo em termos de energia?
– Como é que o sentiste?
– Esqueci-me de prestar atenção! Perdi a concentração.
– Parece-me bem! Se calhar é suposto ser assim.
– Mas assim posso não estar a tirar todo o proveito da experiência!
O mestre voltou a encarar o aluno, com olhar apreensivo.
– E a rapariga?
– O que tem?
– Gostou?
– Sorriu muito. Como eu! Acho que gostou.
– E achas que ia gostar se estivesses a analisar isso da energia?
– Não sei!
– Já sei que és casmurro. E que vais tentar analisar isso! Tem cuidado, não espantes a rapariga.
E voltou em silêncio para os seus afazeres.
Sem mais respostas, o rapaz abandonou a sala.

No dia seguinte voltou novamente, sensivelmente à mesma hora, e o seu semblante era menos entusiasmado, mas ainda feliz.
Esperou que o mestre se virasse na sua direcção.
– É maravilhoso! – exclamou.
– O que é maravilhoso?
– A energia do beijo!
– E porque não estás aos pulos como ontem?
– Não imaginei que fosse assim. É estranho perceber o que é um beijo!
– E não percebias antes?
– Não do mesmo modo. É diferente!
– Gostaste?
– Claro que gostei!
– E a rapariga?
– Continuou a sorrir. Acho que gostou.
– Sentiste alguma coisa diferente?
– Acho que não. – disse pensativo.
– Parece-me igual. Não vejo diferença.
– Mas…
– O beijo não mudou.
– Mas, mestre…
– O mundo não muda por tu o perceberes. Tu é que mudas. A tua perspectiva é que muda. Um beijo ainda é um beijo. Como sempre foi.
E o mestre levantou um vaso e admirou uma das suas plantas viçosas.
– Coitada da rapariga! – murmurou entre os dentes.


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Este texto foi escrito e publicado em 2015, como parte de uma edição especial da Chiado Editora para celebrar o Dia Mundial do Livro.

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